O Malabarista Cego


Jogou  uma carta para o alto, fez com que rodopiasse, desse cambalhotas e agisse como um bumerangue, voltando em seguida para sua mão. Seu nome era M.M.Mágico. Assim mesmo, e os dois primeiros "emes", não me pergunte, porque fazia um mistério danado em torno do significado deles. Eu nunca descobri seu nome, mas vi muitas vezes o habilidoso prestidigitador em ação. Baralhos inteiros apareciam por entre os seus dedos, para desaparecer logo em seguida. Naipes pequenos viravam enormes figuras coloridas, e cordas pálidas, ao estalar dos dedos adestrados de M.M., viravam arco-íris inesquecíveis. Tudo-bem-tá-tudo-certo. Mas alguma coisa era opaca na figura mágica de M.M. As cartas voavam sempre da mesma maneira, os baralhos sempre sumiam impressionantemente e na mesma medida, e o arco-íris feito de corda tinha sempre as mesmas cores. De tanto ensaiar, aquele sujeito mágico ficou duro, invariável, inflexível. Não saía mais de casa. Apresentava-se nas festinhas da cidade e logo voltava para seu quarto espelhado. Mindinho, anelar, médio, indicador, polegar. Seus dedos eram os mais rápidos, os mais eficazes. Não erravam jamais. Um dia, andando pela rua de paralelepípedo na quadra ao lado da sua - morava na parte baixa de um morro íngreme -, cruzou com um moleque. M.M. subia a rua, o moleque descia. "Ei, você não é o grande mágico da cidade, que faz as cartas voarem e as cordinhas se transformarem?". Respondeu que sim com a cabeça, ia continuar caminhando morro acima, mas foi impedido pelo corpo do menino. "Faz uma mágica pra eu ver!" Fez não só um, mas vários efeitos ilusórios. O moleque, pés descalços, se entediava com aquela demonstração de habilidades, e M.M. não entendeu nada. Não errou. Nenhuma carta caiu, nada saiu do lugar. "Moleque, o que acontece?"; "Quero ver uma mágica!". "Mas eu fiz várias!". "Não! Eu quero ver mágica, e não coisas que você treinou para fazer. Quero uma mágica de verdade!". Pensou e se viu nervoso depois de muito tempo, não se lembrava de jamais terem questionado suas habilidades de prestidigitador. Olhou para o moleque - que intrometido, o rapaz! Por causa da ladeira, estavam da mesma altura. Abriu as mãos vazias e mostrou para o menino que lá não havia nada. Não fez com os dedos aqueles movimentos de ginasta chinês. Apenas levou a mão até a orelha do ansioso garotinho à sua frente. Olho no olho - naquele momento de tensão eram iguais, até na altura! Havia tempos não fazia aquilo, mas conseguiu achar na orelha do moleque uma linda moeda prateada. Sorriram os dois. M.M. percebeu que para fazer mágica de verdade era preciso treinar, mais do que as mãos, o olhar. Que difícil pode ser encontrar o olhar do outro para criar aquela cumplicidade breve que gera a mais genuína das mágicas. Viu sua própria mágica e se espantou com ela. Despediu-se, subiu a ladeira e naquele dia não ensaiou. Resolveu assistir ao pôr-do-sol, para treinar o olho e descansar um pouco os dedos. Mindinho, anelar, médio indicador, polegar. Os cinco viram a noite cair, descansados e livres definitivamente de um peso danado que carregavam nas costas.
Esse texto foi retirado do livro Manual da Mágica, do autor Ismael de Araujo.

Um comentário:

Unknown disse...

simplesmente lindo!!!!! amei!!

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